Um conselheiro do parlamento Francês concebe maquiavélico plano para se apoderar da fortuna da cunhada
Ouvi muito bem, a senhora marquesa — depôs a camareira indiscreta — declarar à sua amiga, Sr.ª de Chambonneau, que só podia contar com o Sr. Cavalheiro de Rose para a desembaraçar do seu marido! E que, se ele o fizesse, estaria pronta a pagar-lhe duzentos luíses!
Ora, o marquês de Sassy, justamente, acabava de desaparecer no decorrer de uma viagem a Bruxelas feita em companhia do cavalheiro de Rose! Ali estava uma testemunha preciosa, sem ambiguidade, que não podia ser recusada pela justiça. A Sr.ª de Sassy e a Sr.ª de Chambonneau foram presas.
O facto do desaparecimento não era discutível. O Sr. de Sassy, antigo coronel de infantaria, brilhante soldado e senhor de bela fortuna, deixara Paris em fins de Abril de 1704, com destino à Flandres, onde tinha negócios. Viajava na sua carruagem, conduzida pelo seu cocheiro François Larive, e acompanhado por seu intendente, Alexandre, de origem levantina, e que os Sassy haviam enobrecido não se sabe porquê, tratando-o por cavalheiro de Rose. A carruagem chegara realmente a Bruxelas, mas vazia! Interpelado, o cocheiro pretendia que o seu senhor descera do veículo em Senlins, ordenando-lhe que levasse o cavalheiro de Rose até à grande cidade flamenga. Em Bruxelas, Alexandre dera liberdade a Larive, convidando-o a voltar em pequenas etapas, a Paris, enquanto dele mesmo não dera mais sinal de vida. Quanto ao coronel, também não se ouvira mais falar.
Ódio movido pela ambição
Ali estava um conjunto de circunstâncias estranhas e que, reunidas ao testemunho da camareira, justificava um certo alarme. O primeiro a manifestar inquietação, foi um cunhado do marquês, conselheiro no Parlamento de Paris, homem ambicioso, ávido por dinheiro, inescrupuloso e gozando de elevada autoridade sobre os seus colegas do Parlamento, Sr. de Villers.
Villers tinha razão para se agitar pois que odiava a cunhada e havia feito o impossível para impedir o seu casamento com o marquês de Sassy. Esse matrimónio tirava-lhe as esperanças de algum dia herdar os bens consideráveis do antigo coronel. Casamento que, além do mais, tinha uma história um tanto escandalosa a contar: a Sr.ª Margarida de Gaudon desposara em primeiras núpcias o Sr. de Ris, capitão na Cavalaria Ligeira e que morrera na Itália, em 1692, no Exército real. Tivera um filho que como o pai, morreria também, na Itália, em 1702. Desde muito tempo ela fora amante do Sr. de Sassy, embora fosse este sensivelmente mais jovem que ela. Na época em que se desenrola a nossa história, contava ela quarenta e seis anos, enquanto o marquês tinha apenas trinta e quatro. Convém acrescentar que a Sr.ª de Ris teria podido legitimar, desde o início, os seus amores com o antigo coronel que logo manifestara o desejo de a desposar. Ela recusara, considerando que a diferença de idade tornava difícil uma união duradoura, não querendo, por outro lado, impor ao amante o encargo do filho do Sr. de
Ris. Morto este, o Sr. de Sassy, cada vez mais apaixonado (porque a Sr.ª de Ris fizera ainda mais bonita) renovara o oferecimento e a viúva deixara-se convencer.
Foi então que o Sr. Villers se intrometeu. Pela primeira vez, mas não a última. Enquanto as relações do seu cunhado eram irregulares, ele não se impressionara. Um casamento, porém, criava uma situação diferente. Não obstante os seus quarenta e seis anos, a Sr.ª de Sassy podia ainda tornar a ser mãe e deixar herdeiros que o lesariam grandemente, se um dia o Sr. de Sassy,
soldado intrépido e, até, temerário, sucumbisse à frente dos seus cavaleiros. Tentou obter a interdição das núpcias, alegando que a Sr.ª de Ris se portara com indignidade durante a viuvez. A causa era má. Perdeu.
As malhas apertam-se.
Encontrava, agora, no desaparecimento do cunhado, bom motivo para a desforra. No dia 10 de Maio de 1704, foi, portanto, efectuada a prisão da Sr.ª de Sassy. A Sr.ª De Chambonneau foi também presa dois dias depois. No dia 15 novas prisões: os dois padres familiares da residência de Sassy, abades de Ponsenac e de Viginaire, que teriam sido confidentes da marquesa. Recolheram à sombria Bastilha.
Uma inquirição realizada na residência de Sassy permitiu à Polícia descobrir cartas, algumas das quais pareceram efectivamente misteriosas para interessar os magistrados. Uma, principalmente, em que se falava duma criança que teria nascido antes do casamento, das relações de Mme de Ris e do Sr. de Sassy, e cuja vinda teria sido — declarava o Sr. de Villers — a verdadeira razão pela qual o coronel teria desposado a bela viúva, sob a ameaça de chantagem, que esta lhe moveria. «Eis um filho — dizia e epistola — que Deus quis que eu tivesse. E o que você tanto queria. É seu, sem dúvida. É o filho que merece todas as esperanças do seu nome.»
O caso tomava consistência. O dossier Villers ia aumentando. A Sr.ª de Sassy defende-se — mas mal. Não que confessasse alguma coisa. No entanto negava com voz macia, hesitante, com embaraços e contradições que impressionaram desfavoràvelmente os juízes. Villers desdobrava a sua ofensiva: acusou a cunhada de ter subtraído ao marido papéis comprometedores, estabelecendo que o Sr. de Sassy traira o rei, colocando-se ao serviço da República de Veneza, na altura em guerra, não declarada é certo, contra Luís XIV. Primeiro ponto. E — segundo ponto—pretendeu demonstrar que a criança nascida antes do matrimónio (e que era conhecida pelo nome de Mignon) não era realmente filha do coronel nem fora fruto da própria Sr.ª de Ris, que fingira tudo para forçar o Sr. de Sassy a legitimar aquela ligação.
Enganado, a princípio, o marquês afinal acabara por descobrir a fraude. Daí o violento desacordo entre os esposos. Em tudo isso devia ser procurado o móbil dum crime à primeira vista inexplicável.
Á força da opinião pública
A opinião pública, mal informada, era no conjunto hostil à acusada, que perdia terreno dia a dia — e parecia resignada. A posição pessoal do Sr. Villers no Parlamento, como fácilmente se imagina, era suficiente para conquistar os ouvidos dos seus colegas, tanto mais que sempre tivera a reputação de homem severo, de génio azedo e devorado pela ambição, mas homem direito apesar de um tanto rígido. Os co-acusados da marquesa, pessoas de medíocre inteligência e totalmente desamparados perante o aparelho judiciário, apenas sabiam gemer. O cocheiro Larive, que haviam pensado inculpar, de princípio comprara a sua tranquilidade concordando com tudo quanto quiseram. A acreditar no que dizia, o Sr. de Sassy e o cavalheiro de Rose tinham deixado a carruagem juntos, em Senlis. O cavalheiro só voltara duas horas mais tarde e fora ele — e não o Sr. de Sassy — quem dera ordem para prosseguir viagem.
A marquesa parecia inexorávelmente destinada ao machado do verdugo. Um dos seus cunhados a perdia, um outro cunhado a iria salvar! O inquérito estava quase terminado. E o Parlamento ia ser encarregado do caso, quando voltou de Flandres, onde guerreava valentemente, o barão de Ransijac, capitão dos Guardas do Rei, casado com uma irmã da Sr.ª Sassy e homem honrado. Brilhante soldado, de vasta cultura, ligado estreitamente aos mais belos espíritos do tempo, era homem de inteligência firme e ágil ao mesmo tempo. Sa-bia, além do mais, que sólida afeição unia os Sassy e quanto o marquês confiava na esposa. Tudo na história que lhe contaram lhe pareceu inverosímil. Tratou de escolher um advogado de elevado renome (e quase homónimo da acusada), Sr. de Sacy, humanista distinto, ho-mem de coragem, generoso, académico…
Sacy, logo que estudou o processo, notou toda a perfídia do Sr. de Villers. O documento-colossal, que servia de base à acusação, a famosa carta da Sr.ª de Sassy, anunciando o nascimento do filho ao amante, fora odiosamente truncado pelo conselheiro. O jovem Mignon, que vivia na residência de Sassy, era filho de um casal de camponeses do Bourbonnais, paróquia de Saint-Irmont, Antonio Mercier e Georgette Vérat, casados legitimamente e bem conhecidos e respeitados.
— Jamais disse outra coisa! — protestou Villers — O senhor apoia plenamente as minhas acusações. Sempre sustentei que a Sr.ª de Ris tudo havia forjado para forçar o amante a legitimar uma situação da qual já estava fatigado, ameaçando mesmo rompê-la. Sassy deixou-se apanhar na armadilha, aceitou dar o seu nome à amante, legitimando o filho recém-nascido.
A verdade começa a ressaltar
Villers, no seu desejo de agir, ia demasiado longe. A sua afirmação perdeu-o. Não foi difícil ao Sr. de Sacy demonstrar que, jamais, entre os esposos (ou amantes, se preferirem) se pensou em legitimar Mignon; a Sr.ª de Ris adoptara-o durante a viuvez, apresentando-o a Sassy como um filho adoptivo, nunca como legítimo.
Mas, a carta? A famosa carta?
Via-se que era a mesma perfeitamente inocente, quando se lia o texto integral. A Sr.ª de Ris apenas gracejava. Mignon sempre fora querido pelos esposos.
Finalmente, que restava de perigoso no dossier? O testemunho da criadinha indiscreta. Interrogada com paciência, não tardou a confessar que, afinal, ouvira, só e só, a sua patroa pronunciar o nome do cavalheiro de Rose e acrescentar:
- Eu fui contrária a esta viagem. Tenho pressentimentos sombrios. Pagarei com satisfação duzentos luíses ao cavalheiro, tão cedo voltem!
Ficou demonstrado, de facto, que tinha sido o sr. de Sassy o único organizador da viagem, recusando dar à esposa detalhes sobre os negócios que ia tratar na Flandres e contentando-se em dizer:
— Se tiver que me demorar mais tempo mandarei de volta o cavalheiro.
A criadinha acabou confessando:
— Foi o Sr. de Villers quem me sugeriu a depor, a primeira vez, conforme ficou registado.
Se nem tudo se esclarecia, se, principalmente, o desaparecimento do coronel permanecia inexplicável, o papel da Sr.ª de Sassy mudava singularmente de aspecto. Mau grado tudo, o Parlamento, nas mãos de Villers, mantinha prisioneira a infeliz.
Um «morto» que vive
Cerca de 18 meses depois ocorreu o golpe teatral: o Sr. de Sassy reapareceu!
Mais exactamente. Enviou notícias. E com uma pontinha de extravagância, que esclarecia muitas coisas. Na verdade, a história da «traição», tinha certo fundo de verdade. O Sr. de Sassy julgava-se feito para a diplomacia; esse valente soldado tinha a mania de dirigir os negócios europeus. Quando deixou o Exército, trabalhou sucessivamente com os embaixadores da Espanha, de Nápoles, de Veneza, etc. Da maneira mais cândida e também a mais complicada. Luís XIV porém não gracejava com esses assuntos. Babe-se que o famoso «Máscara de Ferro» não passava, de facto, de um vago negociador que se metera a agir junto dos plenipotenciários franco-piemonteses e de maneira pouco fiel à França. Pagou as suas irregularidades com a prisão perpétua. Sassy sentira-se ameaçado de alguma penalidade semelhante? Teve medo e começou a divagar, tomado da mania da perseguição. Confessou-se ao Sr. de Villers, que, longe de o acalmar, mais exasperou, maquiavèlicamente, os seus terrores, com a esperança (nada vã) de provocar uma catástrofe da qual ele beneficiaria. Totalmente perturbado, Sassy resolveu deixar Paris, indo residir no estrangeiro, onde procuraria refazer a vida sob falsa pursonalidade. Fingiu partir para Bruxelas, livrou-se do intendente e do cocheiro em Senlis, seguindo para Jersey.
Essa carta, entretanto, não conseguiu convencer a resistência de Vilters. Taxou-a de falsa. Foi necessário que o governador de Jersey certificasse oficialmente a sua autenticidade para que a Sr.ª Sassy recuperasse, enfim, a liberdade.
Dirigindo-se apressadamente, para junto do marido, tentou convencê-lo a regressar à França. Não o conseguiu logo, mas sòmente depois de muitos meses, arrancando do coronel a promessa de que desembarcaria próximamente em Saint-Malô. Porém Villers era um terrível inimigo: despachou um emissário que, bem instruido e hábil, interrogou o coronel de tal forma que o desgraçado acreditou haver caido numa armadilha preparada pelo rei. Quando a Sr.ª de Sassy voltou para a sua companhia, estava ele louco.
O Sr. de Villers triunfava: morto o coronel, obteve imediatamente a administração da sua fortuna.
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Title: Um conselheiro do parlamento Francês concebe maquiavélico plano para se apoderar da fortuna da cunhada
- Publicado:
- 28.05.08
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