Rasgo heróico duma altiva Romana

A História está repleta de figuras femininas que a qualquer título se tornaram famosas. Nas épocas mais remotas, na Ásia, na Grécia e em Roma, na misteriosa e poética penumbra dos séculos primitivos, aparece a mulher como uma divindade, cercada de nobres atributos, culto sagrado da veneração do homem. Rivalizando com as altivas matronas de Lacedemonia e Esparta, nas margens do Tibre, depara-se-nos primeiro Clélia e depois Porcia.

Piutarco, na sua primeira viagem a Roma deteve-se um dia, na Via-Sacra, diante da estátua de Clélia montada em fogoso corcel, ficando-se algum tempo a apreciar a extraordinária heroína que já havia excitado a admiração de Porzena, o rei dos Etruscos.

A História completa o quadro, referindo o rasgo de heróico valor que tornou célebre o nome da ilustre dama.

O ódio entranhado nos diferentes ambiciosos que anelavam o poder supremo, agitava Roma, cobrindo-a de sangue, luto e extermínio

Os Tarquínios, expulsos pelos seus rivais, procuraram refugiar-se nos Estados dependentes dos príncipes italianos e conseguiram que Porzena, rei da Etruria, abraçasse a sua causa e intentasse reconquistar-lhes o trono.

Nesse intento, encaminhou-se a Roma, à frente das suas legiões, cercou-a, e depois de alcançar vitória nas margens do Tibre teria entrado triunfante na cidade se lhe não saísse ao encontro, na ponte Publicus, Horácio Codes, que a defendeu com denodada energia. Porzena, desanimado, resolveu bloquear a cidade no intuito de conquistá-la pela fome, mas um jovem romano, chamado Mucio Scévola, formou o arrojado projecto da libertar a pátria. Penetrando até a tenda de campanha do príncipe, assassinou por engano o secretário. Conduzindo à presença de Porzena, o heróico mancebo colocou a mão sobre um braseiro e deixou-a queimar para impor a si mesmo o castigo de se ter equivocado.

O rei de Etrúria — diz Tito, aterrado perante este valor sobre-humano, apressou-se a celebrar a paz com Roma recebendo em reféns dez donzelas e dez moços pertencentes às mais ilustres famílias. Entre as donzelas achava-se Clélia.

A corajosa menina banhava-se um dia no Tibre, juntamente com as suas amigas. Em frente delas avistava-se Roma, iluminada pelos raios do sol, fendendo com os seus altos capitéis as nuvens vaporosas.

— Quem me ama, siga-me — ex-clamou Clélia entusiasmada. — Dentro daqueles muros aguardam-nos os braços de nossas mães, a liberdade e a glória!

E atravessou a nado a caudalosa corrente, seguida pelas suas companheiras. Chegando à margem oposta, saltou na praia, penetrou em Roma e apresentou-se no Senado, rodeada pelos aplausos e vivas frenéticos da multidão delirante.

Todavia, a fé dos tratados representava para aqueles séculos primitivos um dogma sagrado.

O cônsul Publicola, admirando embora e vitoriando a arrojada proeza das donzelas, entendeu que era do seu dever devolvê-las a Porzena, encarregando-se ele próprio de reconduzi-las à sua corte.

Chegados à presença do rei este, penetrado de admiração, perguntou qual delas tinha sido a que concebera o ousado projecto.

— Eu! — exclamou  corajosamente Clélia, adiantando-se — Eu só. Caia sobre mim apenas a tua justa cólera! Nascido de uma família livre não podia suportar por mais tempo a escravidão.

O rei da Etrúria — escreveu o historiador Aurélio — apreciando simultaneamente a lealdade dos Romanos e o valor heróico da donzela, converteu-se de inimigo em amigo, uniu-se em estreita aliança com Publicola, expulsando dos seus Estados os turbulentos Tarquínios. E em vez de punir Clélia ofereceu-lhe um formoso cavalo emplumado, para que regressasse livre à cidade e vivesse honrada e abençoada.

Com efeito, o seu nome glorioso inscreveu-se nos fastos da República, ao lado dos de Núncio Scévola, Horácio Codes e outros mártires da independência da pátria.


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