Principes desventurados- O Infante português D. Duarte
Se houve príncipes desgraçados que sempre tiveram a vida sublinhada pela mais tirânica desventura, D. Duarte, irmão do duque de Bragança, D. João, depois rei de Portugal, foi um deles. D. Duarte foi vitimado pela tirania e ambição dum imperador poderoso, que não abrandou na sua crueldade nem mesmo sob as pressões diplomáticas que então se moveram.
Quando, em 1640, D. João IV foi aclamado, achava-se já o infante, desde tenra idade, ao serviço de Fernando III, imperador da Alemanha, junto de quem exercia o cargo de sargento-general de batalha, através do qual soube pôr em relevo o valor e perícia que sempre mostrou. D. Duarte era geralmente estimado por todo o Exército.
Quando o Conde Mathias Galazzo foi nomeado, pelo imperador, tenente-general do Exército de seu filho Fernando, rei da Boémia, foi o infante um dos generais que mais cooperaram para a expulsão dos suecos do território alemão, para firmar o rei Fernando no trono.
Logo que terminou esta campanha, em Dezembro de 1640, acampou o infante com o exército em Suevia, a três léguas de Ulma, ao tempo em que à corte da Alemanha chegava a notícia da restauração da independência de Portugal, notícia que cuidadosamente se ocultou ao infante.
D. Francisco de Mello, português, embaixador naquela corte pelo rei de Espanha, foi o primeiro que recebeu a participação desse feito glorioso dos portugueses, e a ordem de prender o infante por todos os meios que fosse possível empregar.
Esquecido dos benefícios que devia à Casa de Bragança, cujo sangue lhe corria nas veias, correu o traidor português a participar ao imperador as ordens que do Governo espanhol havia recebido para a captura do infante, ordens estas a que Fernando III abertamente se negou a aceder, visto que seria violar as leis da hospitalidade e pagar com a mais negra ingratidão os serviços que o infante D. Duarte prestara ao seu país.
De pouco serviu a recusa.
Não desanimaram, todavia, os ministros espanhois, que, com ouro e astúcia, conseguiram ganhar para o seu partido vários personagens, incluindo a própria imperatriz e o seu confessor, o padre Zamora, cujas repetidas instâncias, afinal, moveram o ânimo do impe-rador a praticar a mais vergonhosa acção que consta da história de todos os países.
Deu ordem o imperador para que o infante fosse chamado a Rastibona e ali preso à sua ordem, pondo a preço de 8.000 cruzados a sua cabeça. Salvou-se, felizmente, D. Duarte desta infame cilada, porque, quando os ambiciosos o esperavam por terra para o assassinar, desembarcava ele, sem a menor suspeita da trama horrível que contra gele se urdia.
A 14 de Fevereiro de 1641 chegou o infante a Ratisbona, e, sendo alojado numa estalagem, onde lhe foi notificada a ordem de prisão, ali ficou encerrado no mais estreito aposento e vigiado por uma força de 40 mosqueteiros, comandados por um capitão.
Admirou-se muito o infante de semelhante ordem, e muito mais de que seu irmão, o duque de Bragança, se resolvesse a tomar a coroa de Portugal sem o ter previamente avisado, cuja falta foi o principal motivo da desgraça do infeliz príncipe.
Sem embargo das diligências empregadas pela Dieta de Ratisbona e por vários príncipes, não concedeu o imperador a liberdade ao infante e mandou-o, no fim de oito dias, preso para o castelo Passeovu, o qual pertencia ao arquiduque Leopoldo, um dos que mais energicamente se tinham oposto na corte à prisão de D. Duarte.
No fim de cinco meses foi o infante removido para Gratz, onde conseguiu corresponder-se com o bispo de Lamego, que então se achava em Roma, e pediu-lhe a intervenção do Papa, que nada pôde fazer em favor do infeliz príncipe.
Sendo substituido D. Francisco de Mello, ao qual o rei de Espanha deu o governo da Flandres, pelo marquês de Castelo Rodrigo, deu este as ordens mais apertadas em relação ao infante, mandando-lhe tirar todos os criados portugueses, e até o próprio confessor, que substituíram por um jesuita alemão. Queixou-se o infante ao imperador, por uma carta que conseguiu fazer-lhe chegar às mãos, e em resposta à qual obteve a promessa do que em breve tempo cessariam os seus infortúnios. Em vez, porém, do cumprimento desta promessa, viu o infante perdidas as suas esperanças, porque o marquês de Castelo Rodrigo, oferecendo ao imperador 40.000 cruzados pela prisão do infante, fechou-lhe o coração à voz da consciência. Por esta infame negociação foi entregue o infortunado príncipe ao poder do rei de Espanha, o qual o mandou encerrar na fortaleza de Milão, por a julgar mais segura.
Foi o infante acompanhado, até aos confins de Valtelina, por Stuembergs, comissário imperial, e a quem D. Duarte, ao despedir-se, dirigiu estas palavras:
–Dizei ao imperador, que maior pena me dá haver servido um príncipe tirano, que o ver-me preso, vendido e entregue nas mãos de meus inimigos; mas que Deus há-de permitir que haja alguma hora quem faça o mesmo com seus filhos, que não nasceram mais privilegiados que eu; pois a Casa Real de Portugal, de que descendo, não cede em sangue à Casa de Áustria; e que se lembre, para mortificação sua como a mim sucede para meu alívio, de que as histórias hão-de falar nele e em mim.
Deram os espanhois ao infante, para prisão no castelo de Milão, a torre de Raqueta, destinada até ali a cárcere dos maiores facínoras: puseram-lhe sentinela à vista, carregaram-no de ferros e proibiram-lhe toda a espécie de comunicação com os seus. Além disso, tiraram-lhe os próprios criados.
Oito anos durou este inqualificável procedimento duma nação católica. Bem se esforçou D. João IV, com toda a sorte de diligências junto da corte de Espanha, em conseguir a liberdade do infortunado irmão. Chegou a oferecer pelo seu resgate 400.000 cruzados, que mandou para Itália, soma que, por não ter efeito a negociação, seguiu vários destinos.
Por intervenção dum clérigo chamado Francisco Portii, conseguiu o infante D. Duarte corresponder-se durante o resto da sua vida com o irmão, ocultando a correspondência sempre debaixo dum tapete da capela onde ouvia missa, e em cujo lugar igualmente achava as respostas.
Morreu, finalmente, o desditoso infante, a 13 de Agosto de 1648, tendo trinta e nove anos de idade, mas a sua morte foi abreviada pelos martírios que sofreu, e não pelo veneno que se dizia e terem-lhe ministrado.
Foi o infante sempre valoroso e dotado de grande sabedoria, e afável para com todos que o tratavam.
Era alto e louro, e, segundo os seus contemporâneos, de mui gentil disposição, o que ainda aumentava mais a simpatia que inspirava geralmente.
Quando chegou a Portugal a notícia da morte do infante, festejavam os portugueses a vitória alcançada pelo conde de S. Lourenço contra os espanhois. Mandou logo el-rei D. João IV suspender todas as manifestações de júbilo, trocando-as por tristeza, pela perda de tão infeliz príncipe, e mandou distribuir por todos os seus oficiais o luto de que se vestiram. Em toda a parte do reino se fizeram as maiores demonstrações de sentimento e dor.
Assim terminou a sua carreira, um dos mais nobres príncipes de que se ufana a História Portuguesa, o qual, em troca dos heróicos e valiosos serviços que prestou a favor duma nação poderosa, recebeu a mais cruel afronta e desdita, e que do coração dos portugueses jamais poderá ser riscada.
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Title: Principes desventurados- O Infante português D. Duarte
- Publicado:
- 23.05.08
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