Nos tempos antigos já havia Homens-rãs
Muito antes de conhecer os escafandros, o homem tem sentido desde os tempos imemoriais a atracção dos segredos e da profundidade dos mares. Para os conhecer não tinha outro meio que o de submergir. Mas, então, não podia passar de uns quarenta metros de profundidade, e, além disso, a imersão tinha de ser breve.
A lenda transmitiu-nos a recordação de um extraordinário homem-rã: o siciliano Pescicola, quer dizer Nicolás el Pez. Este nadador levava as cartas de ilha em ilha, e dizem que passava vários dias no mar, alimentando-se de pescado cru.
Achando-se em Messina, Frederico, rei da Sicília e tendo ouvido falar de Nicolás el Pez, fê-lo ir à sua presença e mostrando-lhe o rugidor redemoinho de Caribdis, lançou-lhe um magnífico copo de ouro, excitando Pescícola a que mergulhasse e fosse buscá-lo.
Pescícola arrojou-se ao torvelinho sem hesitar. Mais de três quartos de hora — pretende a lenda, exageradamente — esteve debaixo de água enquanto o rei e o gentio esperavam com ansiedade. Até que Nicolás reapareceu triunfante com o valioso objecto, mas espantosamente pálido.
Frederico da Sicília perguntou-lhe o que havia visto, ao que ele contestou:
— Oh, rei! Fiz o que querias, mas sem saber ao que me expunha. Primeiro, uma tromba monstruosa de água colheu-me e volteou-me em todos os sentidos, antes de eu poder atingir o fundo. Ali encontrei rochas e grutas como há nas montanhas terrestres. Não podia andar sem ferir os pés e com riscos de me perder. Depois, um segundo redemoinho me arrastou para mais longe e então vi um espectáculo horroroso: polvos gigantescos, em grande número, agarravam-se às rochas e agitavam os seus enormes tentáculos tentando colher-me. Se algum me tivesse apanhado estrangular-me-ia num só apertão. Havia, também, uma multidão de peixes desconhecidos, de bocas formidáveis armadas de terríveis dentes.
Naquela profundidade mal se via, quando de pronto adverti o brilho de uma coisa. Era o copo de ouro. Apanhei-o e ei-lo aqui, ó rei!
Frederico não satisfeito com essa primeira experiência, tratou de incitar ainda mais o orgulho e a necessidade do desgraçado, e tomando novo copo de ouro mais valioso do que o primeiro, arrojou-o igualmente ao abismo.
Pescicola vacilou um pouco — e o rei e a multidão estimularam-no com os seus gritos. Ele acabou por lançar-se à água. Em vão o esperaram desta vez. O mergulhador não apareceu mais. A tromba submarina atirou-o decerto contra uma rocha ou foi rebentado pelos tentáculos de algum polvo.
Como acontece com todas as lendas, este relato baseia-se sem dúvida num facto real. A imaginação popular avolumando-o, engrandeceu as proezas do nadador siciliano. Talvez Peseieola tenha sido o primeiro homem que conheceu, alguns dos animais que povoam o fundo dos mares.
No comments
Jump to comment form | comments rss [?] | trackback uri [?]