Adriano Utrecht teve uma mocidade paupérrima

Pelos meados do século XV distinguia-se entre os estudantes da Universidade de Lovão o jovem Adriano, filho de um tecelão de Utrecht.
Adriano estudava com infatigável perseverança. Algumas vezes com os olhos cansados e o corpo abatido pela fadiga, obrigavam-no a interromper a leitura; mas o seu amor ao estudo reanimava-lhe bem depressa as forças. Ávido de toda a espécie de instrução estudava constantemente a origem de todas as ciências.

Seus maravilhosos progressos não tardaram a excitar a inveja dos outros estudantes sobretudo dos mais ricos e menos estudiosos. Ele nunca aparecia depois das aulas. Uma noite alguns de seus colegas espiaram-no com a esperança de o encontrar em qualquer falta.
Ele percebeu que era seguido e desapareceu facilmente das vistas dos outros.
Estes continuaram a passear pela cidade, esperando que qualquer feliz acaso os fizesse encontrar o perseguido. Era já perto de meia noite, quando lhes veio a ideia de visitar a igreja de S. Pedro, não que julgassem encontrar ali Adriano, que se tinha dirigido para outro lado, mas para que a exploração fosse completa.
Quando chegaram junto à igreja, um dos mais belos e mais imponentes edifícios dos Países Baixos, um deles exclamou:
— Ou me engano muito, ou estou vendo uma figura humana parada, quase envolvida pela penumbra, e que parece estar a ler.
Caminharam para o lugar indicado e ficaram mudos de espanto, ante uma figura de rapaz pálido e com o rosto demonstrando fadiga, curvado sobre um livro lendo à escassa luz duma lâmpada.
–É Adriano! — exclamaram.
Vendo-se surpreendido ele levantou a cabeça. O rosto tornou-se-lhe cor de púrpura. Então levantou-se e disse-lhes:
— O mistério está enfim descoberto: sou muito pobre e como não tenho dinheiro para comprar velas, desde que estou aqui tenho-me aproveitado de qualquer canto duma rua para estudar.
— Mas como podes suportar o frio? — perguntou-lhe admirado, um companheiro.
— O frio? — disse Adriano sorrindo; e colocando a mão ardente na do colega, continuou, pondo, em seguida, a mão sobre o coração. — Tenho aqui qualquer coisa que desfaz o frio e a inveja.
Mas agora ninguém pensava em invejá-lo. A datar desse momento, todos tiveram por ele profunda estima. Adriano graças ao seu talento, elevou-se ao posto de vice-chanceler na mesma Universidade, onde tinha sido pobre estudante. Mais tarde foi nomeado preceptor de Carlos V e protegido por esse discípulo, tornou-se o primeiro ministro de Espanha e, enfim, Soberano Pontífice, sob o nome de Adriano VI.


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